terça-feira, 6 de agosto de 2019

Em defesa dos “paraíbas”


Em defesa dos “paraíbas”
1
Meu nobre leitor amigo
Peço vossa atenção
Neste contexto absurdo
Em que se encontra a nação
Pro festival de horrores
Entre ódios e rancores
Já supera a ficção

2
Que a coisa não tá boa
Já não é lá novidade
Que vivemos uma era
Que reclama sanidade
Do festival de doidices
Teve uma idiotice
Grande ato de maldade

3
Quando o senhor presidente
De maneira desleal
Reduziu a “Paraíbas”
O nordestino plural
De forma pejorativa
Atitude agressiva
Que lhe é habitual

4
É a prática do sudeste
Humilhar o nordestino
De “baiano” ou “paraíba”
Pau-de-arara, é sem tino
Se acham superiores
Egoístas agressores
Na ética são libertinos

5
Lá no Rio de Janeiro
É muito comum usar
O nome de “Paraíba”
Pro nordestino apontar
De forma pejorativa
É postura ofensiva
Pra ridicularizar

6
Em São Paulo é notado
O mesmo comportamento
Para o povo nordestino
Em forma de xingamento
Falam em tom de piada:
“Baiano” faz “baianada”
Para todos um tormento

7
O Nordeste meu amigo
Vou te contar uma história
Sendo o berço do Brasil
Tem cultura e memória
Precisa ser respeitado
Pois esse povo arretado
Não dá mão à palmatória

8
Paraíba é um Estado
De importância e valor
Sendo parte do país
Não precisa fiador:
O paraibano é forte
Do brasileiro um recorte
Não falta admirador

9
Sua bandeira incomum
Tem o recado direto:
Négo, do verbo negar
É o Estado insurreto
Ao se opor ao poder
Sem represália temer
De um governo abjeto

10
Terra de Augusto dos Anjos
Poeta paraibano
Cuja poesia afrontava
O rigor parnasiano:
Queria nova nação
Nova civilização
Sem elitismo tirano

11
É também da Paraíba
Outro ímpar nordestino
Ariano Suassuna
Da cultura paladino
É figura imortal
Sua arte genial
O tornou quase “divino”

12
O grande Bráulio Tavares
Escreveu o manifesto
Do “nordeste independente”
Com um sentimento honesto
“O brasil ser dividido”
A pensar nisso convido
É algo que não contesto!

13
Ivanildo Vila-nova
Foi parceiro na escrita
Repentista de valor
Nessa divisão milita:
Já que não respeita a gente
O “nordeste independente”
Novo país delimita.

14
O nordeste tem história
Tem passado e tem presente
Na construção do Brasil
Na luta não foi ausente
Da Bahia ao Maranhão
Na história da nação
O Nordeste é valente

15
O restante do Brasil
Sempre discriminatório
Na fala do presidente
O preconceito notório:
Desconhece a nação
E sem nenhuma noção
Não controla o falatório

16
O nordeste é responsável
Pela nossa independência
Aqui foi travada a luta
Aqui foi a resistência:
A história nos engana
A batalha do Ipiranga
Simulada indecência

17
Batalha do Pirajá
Na cidade da Bahia
Batalha do Jenipapo
No Piauí reunia
Maranhão e Ceará
Para o Brasil libertar
O futuro decidia

18
Revolta pernambucana
Contra o desmando real
Teve a Guerra dos mascates
Tendo papel crucial
Confederação D’Equador:
São revoltas de valor
Pra nação continental

19
A Revolta dos tenentes
Em Sergipe, bom lembrar
O Quilombo dos Palmares
É preciso estudar
Os Malês, a Balaiada
Os Búzios, a Sabinada
Conhecer pra respeitar

20
Teve a Guerra de Canudos
Um massacre de inocentes
No Brasil sempre esteve
Contra nossa pobre gente
No nordeste esquecido
Humilhado e ofendido
Nada novo, presidente!

21
Talvez seja por inveja
Ou talvez ressentimento
Por causa dessa cultura
E desse imenso talento
De Gonzaga a Jorge Amado
O nordeste tem causado
Um verdadeiro tormento

22
Glauber Rocha no cinema
Revolucionou, destarte
Sem falar em João Gilberto
Bossa Nova, Baluarte
Da Bahia a Tropicália
Não há nada que equivalha
Aqui nasceu toda arte

23
Aqui nasceu o Samba
Nos terreiros da Bahia
Mesmo levado pro Rio
Não perdeu a primazia
O forró nossa riqueza
O Cordel a realeza
Arte, cultura e magia

24
E Graciliano Ramos
Do cárcere fez a memória
João Cabral de Melo Neto
Toda honra meritória
Do nordeste a tradução
A alma dessa nação
Literatura é história

25
O nordestino incomoda
Na música e no humor
Na fala e na alegria
Na valentia e vigor
O que seria o sudeste
Sem esse "cabra da peste"
Com seu braço construtor

26
Chico Anísio no humor
Riu dessa sociedade
Ridendo castigat mores
Com muita propriedade
Não se deixou abater
Sua arte um dever
Com a maior serenidade

27 
O Brasil nasceu aqui
Quando europeu invadiu
E foi do nosso nordeste
Que essa nação surgiu
Com índio e africano
O nordeste foi o pano
Onde nasceu o Brasil

28
O brasileiro real
Descendente da mistura
Índios, brancos e negros
Num caldeirão de cultura
Assim nasce o sertanejo
E pra entender pelejo
Esse ódio, essa agrura

29
Nosso povo acolhedor
Região hospitaleira
Povo festivo e feliz
É a alma brasileira
Terra de calor humano
De Ariano a Caetano
Respeito é nossa bandeira

30
Todo esse azedume
É inveja é despeita
Enquanto a vida segue
Nossa cultura é eleita
Patrimônio nacional
Se pra alguns anormal
O mundo inteiro respeita

31
Eu tenho comigo a fé
De Antônio Conselheiro
O sangue de Lampião
O temido cangaceiro
Não venha com leotria
Que comigo não se cria
Seu preconceito grosseiro

32
Do povo de conselheiro
Tenho a garra sertaneja
Que lutou até morte
Naquela cruel peleja
Tenho orgulho dessa terra
Mesmo na paz ou na guerra
Aqui ninguém pestaneja

33
Vou ficando por aqui
Pra não ficar cansativo
Poderia dizer mais
Mas soaria agressivo:
Este recado foi dado
Nosso povo tá irado
Com esse tom pejorativo

34
Se você é nordestino
Sertanejo arretado
Paraíba ou Baiano
Não pode aceitar calado
Quando generalizar
Querendo nos humilhar
Com preconceito abusado

34
Com a cabeça erguida
Dessa nossa identidade
Com orgulho dessa terra
Enfrentemos a maldade
Dizendo pra toda gente
Que o nordestino é ciente
Da sua dignidade

35
Se o tal do presidente
E o povo do sudeste
Com toda maledicência
Repudia o nordeste
De esperar já não se cansa
Pra enfrentar a cobrança
De cada cabra da peste

36
 Quem já resistiu a seca
À miséria, ao abandono
À exploração, à fome
Sem primavera ou outono
Só precisa de respeito
E não desse preconceito
É a rima que entono

37
O nordeste aqui diz NÃO
Ao seu preconceito vil
Contra toda essa loucura
Esse comportamento hostil
Só revela a canalhice
Ignorância e burrice
E só divide o Brasil.

Inamar Coelho, 06/08/2019. Texto em cordel incentivado pela colega Luciana Macêdo para Atividade no E.O.B..


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Reflexão sobre a Páscoa


Reflexão sobre a Páscoa

Querido leitor amigo
Peço vossa atenção
Para um tema importante
Que requer reflexão
A Páscoa e seu sentido
Nessa leitura convido
Para uma revisão

A páscoa tempo de fé
Tempo de renovação
Significa “passagem”
Do cristo a ressurreição
Mas precisamos rever
Para buscar entender
Essa nossa tradição

Nada tendo a ver com ovo
Nem coelho ou chocolate
Deturpação do sagrado
Com todo esse disparate
(Esquecemos que Jesus
Morreu pregado na cruz)
Apagando esse debate

Quando Jesus é lembrado
Tem início a confusão
É loiro de olho azul
Nunca foge do padrão
Criando na consciência
E essa forte tendência
Gera a discriminação

A criança vê Jesus
Diferente da sua cor
Não consegue entender
No máximo pode supor
Que só o branco europeu
É semelhança de Deus
E filho do criador

Assim se dá o racismo
Que devemos combater
É algo um tanto sutil
Que precisamos rever:
Sendo do oriente médio
Jesus só tem um critério:
Europeu não pode ser

Esse Jesus de olho azul
Pela Igreja Pintado
Na época de Constantino
Como um modelo criado
Conforme o padrão Romano
Sendo um Jesus Ariano
Foi pelo mundo adotado

Teve fortalecimento
Na Alemanha nazista
Quando a Igreja Alemã
Passou Jesus em Revista
Divulgou um Jesus branco
Toda parte em todo canto
Modelo pra todo artista

Jesus assim branqueado
Na consciência Cristã
Vem desde a idade média
À insanidade alemã
Permitiu escravidão
Holocausto, aberração
Sem remorso nesse afã

É preciso repensar
Essas nossas tradições
E trazer para o debate
As tantas objeções
Revirarmos a memória
Iluminando a história
Buscando outras visões

Esse coelho da Páscoa
E chocolate no ovo
Usados para lucrar
E para entreter o povo
Criando outra essência
Deturpou a consciência
Não tendo nada de novo

O ovo era tradição
Na primavera pagã
Antes do cristianismo
Da nossa Pascoa Cristã
Usado pra celebrar
A colheita festejar
Na celebração pagã

Era ovo de galinha
Pintado e decorado
Da Europa Oriental
Pelos cristãos adotado
Símbolo de nascimento
Sendo esse o advento
O ovo assim utilizado

Já o coelho da Páscoa
Adotado do Egito
Símbolo de fertilidade
Diferente do descrito
Vem como adaptação
E popularização
Nessa tradição inscrito

O chocolate depois
Pela cozinha francesa
Incrementa o sentido
Da satisfação burguesa
É conforme o deus mercado
Capitalismo adorado
Sem nenhuma sutileza

Nas crianças alimentam
Uma esperança cruel
Com ovo de chocolate
Igual ao Papai Noel
Pobres sem o que comer
Sofrendo sem merecer
Por isso este cordel

Páscoa é renovação
Momento de refletir
Sobre o sentido das coisas
Rever pra desconstruir
Todo esse consumismo
Tem criado um abismo
Para fé dissuadir

Cristo foi crucificado
Morreu e ressuscitou
É o fundamento da fé
Do pecado nos livrou
Coelho, ovo, chocolate
Coloca em xeque-mate
O que Ele nos legou

Ensinemos as crianças
Como opera o mercado
Que se utiliza da fé
Pra manter o seu reinado
Sem ver a desigualdade
Agindo com crueldade
Com o lucro calculado

Vou ficando por aqui
Propondo a reflexão
Buscando desconstruir
Toda essa aberração
Que só esconde Jesus
A sua morte na cruz
E a sua ressurreição.

Inamar Coelho, 19/04/2019.