I
Peço vossa atenção
Neste instante singular
Para debruçar-se agora
No que aqui vou narrar
Sobre um vate importante
Personagem instigante
História pra se contar
Trata-se de Luíz Gama
Descendente africano
Filho de Luísa Mahin
Com um fidalgo baiano
Que fez sua própria história
E em sua trajetória
Demonstrou muito tutano
Sua mãe era africana
Veio da costa do marfim
Uma negra muçulmana
Seu nome Luísa Mahin
Revoltosa dos Malês
Que fugiu pra não morrer
Pois ela era estopim
II
Do seu pai pouco se sabe
Pouco a história conta
Só que o perdeu num jogo
Sem poder pagar a conta
O próprio filho entregou
Mas a história mostrou
O que aqui se reconta
Batizado por Luiz
Gonzaga Pinto da Gama
Aos 10 anos foi vendido
Teve início o seu drama
O próprio pai o vendeu
Em um jogo que perdeu
Essa história Reclama
Logo foi posto à venda
Mas logo foi rejeitado
Apenas por ser baiano
Isso era um pecado
Baiano era perigoso
Indomável e ardiloso
O coitado injustiçado
III
Nos anos de oitocentos
Na década de quarenta
É levado pra são Paulo
E nova vida enfrenta
Escravo por condição
De um dono de pensão
O jugo experimenta
Um hóspede da pensão
Ensina a ler e escrever
O pequeno Luíz Gama
E fez com muito prazer
Naquele menino via
Que no futuro teria
Um talento a florescer
E cresceu bem convencido
Do direito à liberdade
Fugiu daquela pensão
Aos dezoito de idade
Na guarda municipal
Alista-se com o aval
De persona da cidade
IV
O Conselheiro Furtado
Professor da faculdade
Também Chefe de polícia
Homem de autoridade
Simpatiza com Luiz
E este todo feliz
Vislumbra a “liberdade”
Luíz Gama teve acesso
Com o amigo conselheiro
À sua biblioteca
E leu o acervo inteiro
Ficou seis anos por lá
E soube aproveitar
O que pôde por inteiro
Na guarda municipal
Até a cabo chegou
Tentando o seu melhor
Mas algo lhe afetou
Preso por um mês então
Por insubordinação
Da guarda de afastou
V
Mas continuou amigo
Do Conselheiro Furtado
Dos moços da faculdade
A história tem citado
Interessou-se por direito
Por poesia, por despeito
Autodidata esforçado
Seu amigo conselheiro
Concedeu colocação
Por seu bom conhecimento
Da policia escrivão
Pelo amigo Bonifácio
Da sua vida prefácio
Da poesia vocação
Luíz Gama autodidata
É bom aqui relembrar
Não frequentou a escola
Nenhum curso regular
Foi só alfabetizado
E na leitura focado
Negro não tinha lugar
VI
Na Faculdade de Direito
Tinha livre o acesso
Participava das conversas
Nisso ele viu progresso
Absorveu conhecimento
Alimentou seu talento
Fez o caminho inverso
José Bonifácio o moço
Poeta e professor
Sobrinho do Patriarca
E um amigo de valor
Das ideias partilhando
Libertário se firmando
De Luiz foi impulsor
Lança livro de poesia
Aos vinte nove de idade
“Primeiras trovas burllescas”
Na cultura da cidade
Sem nenhuma coerção
Com aplauso e atenção
E receptividade
VII
Tratava-se de um negro
No tempo da escravidão
Escrevendo poesia
Com muita convicção
Criticando alguns costumes
Despertando o azedume
Dos puristas de plantão
Luíz Gama o Poeta
Nos idos de oitocentos
No ano cinquenta e nove
Já possuía elementos
Para crítica literária
Para escrita libertária
Despertando ciumentos
Por isso foi criticado
Recebeu um apelido
Orfeu de carapinha
Não se sentiu ofendido
Alcunha pejorativa
E ao contrário incentiva
Pois não se deu por vencido
VIII
Ataca na sua poesia
O crime da escravidão
Satiriza os costumes
Da elite de plantão
Os políticos a igreja
E numa grande peleja
Lança segunda edição
Naquele tempo sombrio
Por bode o negro era tido
“Bodarrada” era o termo
Apelido indevido
Mas Luiz provou então
Que todos nessa nação
De bode foi concebido
O poema “Quem sou eu”
Poema vivo atual
Trata da corrupção
E do preconceito geral
Numa sátira afiada
Mostrou que a bodarrada
É a condição geral
IX
Luiz seguiu sua vida
Jornalista combativo
Defende a abolição
Foi progressista ativo
Fundou jornais e revistas
Sendo antimonarquista
Foi republicano ativo
Tornou-se o advogado
Sem diploma superior
Do negro escravizado
Foi o grande defensor
Combateu a crueldade
Conseguiu a liberdade
Do Negro foi benfeitor
Foi terror dos fazendeiros
Com a sua atuação
Destacado homem público
Conquistou admiração
Com Poesia e Direito
Foi um homem de respeito
No combate a escravidão
X
O baiano Luíz Gama
Ex-escravo combativo
Poeta e militante
Escritor comprometido
Advogado radical
Brasileiro imortal
Embora desconhecido
Desprezado na história
Por sua crítica mordaz
Por sua sátira aguda
Que sua poesia traz
Por isso foi esquecido
É o efeito surtido
Do preconceito voraz
É preciso que a escola
Reconheça seu valor
Apresente sua obra
Discuta o seu labor
Vida de superação
De ativa produção
Digna de nosso louvor
XI
Pois o mesmo iniciou
Do pensar a negritude
Da identidade negra
Demonstrando atitude
No direito e nas letras
Estas e outras facetas
Sua vida se resume
A história oficial
O despreza é verdade
Por sua vida singular
Por não fazer paridade
Aos poetas renomados
A um padrão engessados
Sufocando a liberdade
Advogado dos negros
Pela abolição lutou
E antes de ver o sonho
A vida se apagou
Morreu seis anos antes
Mas os seus sonhos pujantes
A negritude herdou
XII
Agradeço a você
Que o que digo quis ouvir
Que conheceu o poeta
Que conseguiu reagir
Recusando a escravidão
Do negro foi bastião
Só podemos aplaudir
É um personagem impar
Da nossa literatura
Que traçou o seu perfil
Conhecer a sua obra
É o que agora se cobra
Aqui de modo sutil
Vou ficando por aqui
Deixando este recado
Nas linhas de um cordel
Com defeito no rimado
Feliz por noticiar
Uma história singular
Por isso muito obrigado.
Inamar Coelho, 01/03/2017